Hoje lhes trago um post diferente: Uma entrevista com Maud Epascolato, uma das escritoras mais
simpáticas e talentosas que a literatura me apresentou. Conheci a Maud em 2012,
quando juntos participamos da antologia "O Último Dia Antes do Fim do
Mundo". Daí por diante nos tornamos grandes amigos, e até então trocamos
figurinhas literárias. Em 2013 a Maud lançou "Medo do Escuro e Outras Histórias", uma coletânea de contos de terror e suspense que foi um fenômeno de vendas
na Bienal do Rio de Janeiro.
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Com a Maud, na Bienal de SP (2014) |
Após participar da antologia "Conto dos 7" e lançar alguns trabalhos na
Amazon, Maud escreveu "A Bruxa do Olho de Vidro", conto recentemente
lançado pela Editora Lendari, em uma linda edição de bolso.
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Maud e seu filhote |
1. Primeiramente
gostaria de te agradecer por conceder essa entrevista. A ideia já estava
no papel há algum tempo, e finalmente a colocamos em prática! Para começar,
fale um pouco sobre o seu conto – ou diria novela? – A Bruxa do Olho de Vidro.
O que os leitores precisam saber antes de lê-lo?
A Bruxa do Olho de Vidro é
um conto ambientado numa casa abandonada em São Paulo que tem como primeiro ato
uma brincadeira de criança, e três crianças como protagonistas. Como é um conto,
não é possível dar muitos detalhes, mas o escrevi como uma história juvenil de
mistério, mas acredito que atinja outros públicos. Há o elemento sobrenatural,
como é comum nas obras que escrevo.
2. Tive
a chance de ler a obra graças a sua camaradagem. (Risos.) Notei que o conto
evoca um pouco a atmosfera dos anos 80; um leve quê de obras como “It”, “Conta
Comigo” e até mesmo a recente série “Stranger Things”, pelo fato de envolver
crianças desvendando certos mistérios... Essa influência “oitentista” é um fato?
Na verdade, a minha
influência foi a minha infância e as brincadeiras de criança. Como passei a
infância nos anos 80, faz sentido essa sensação oitentista, mas nunca pensei
por esse lado, mesmo porque a história não se passa nos anos 80. Ainda não li ou
assisti as obras que você citou, então não posso afirmar sobre a atmosfera, mas
o conto nasceu para ser uma brincadeira de criança, mas se transformou
“naquilo”.
3. Em
2013, você lançou “Medo do Escuro e Outras Histórias”, conseguindo vender inúmeros
exemplares na Bienal do Rio de Janeiro. Existe alguma semelhança com o seu novo
trabalho no que diz respeito ao gênero ou mesmo ao universo do livro? Melhor...
Existe um compartilhamento de um mesmo universo?
A semelhança é ser também
um conto (embora maior) e enveredar pelo mistério e pelo sobrenatural, e o
terror é mais psicológico, como procurei fazer em “Medo do Escuro e outras
histórias”, pois é o gênero que gosto mais.
4. Quais
foram suas maiores influências para a criação desse livro?
Esse conto foi escrito em
2014, depois de oito/nove meses parada. Foi o primeiro texto que escrevi quando
fui morar em São Paulo e quis ambientá-lo na cidade. Acho que a influência que
tive para escrevê-lo foi o clima nublado da cidade, além da minha própria
infância. Simplesmente sentei na frente do notebook e comecei a escrever, sem
fazer um esqueleto da história. Levei quatro dias jogando as ideias no papel. A
princípio, seria um conto de apenas cinco páginas, mas foi crescendo, e as
ideias mudando ao longo da escrita. Para mim, o resultado ficou melhor do que o
que eu havia previsto.
5. “A
Bruxa do Olho de vidro” passa uma sensação de realidade muito forte, como se a
história fosse inspirada em fatos reais. O que tem a dizer sobre isso?
Não foi baseada em
fatos reais e qualquer semelhança com fatos e personagens da vida real é mera
coincidência. (Risos.) Quem me conhece sabe a dificuldade que tive para usar
tantos números em uma obra só. Matemática nunca foi o meu forte... Mas acho que
o fato de a minha infância ainda estar muito fresca na memória ajudou a causar
essa impressão de realidade.
6. Percebe-se
que você é mais voltada para o suspense e o terror. Você acha que esses gêneros
estão em evidência no mercado literário brasileiro? Se afirmativo, a que você
atribui esse sucesso?
Acho que o suspense e o terror estão
alcançando mais os autores brasileiros, e consequentemente os leitores. Sempre
haverá um público específico para todos os gêneros, mas acredito que o mercado
literário tenha suas fases, e estamos na fase do thriller psicológico e do
terror (embora ainda tenha muito para crescer). E temos autores muito
talentosos que nem foram descobertos ainda, pois o preconceito dentro do cenário
nacional quanto ao gênero não foi vencido por completo. Mas atribuo a evidência
do gênero nesse momento a editoras que estão investindo, acreditando e
publicando autores nacionais.
"Literatura é uma forma de se libertar do que te aprisiona, é uma
autoterapia, é um recurso para se buscar a si mesmo e uma forma de se encontrar
em meio ao caos e à turbulência da vida."
7. O que
podemos esperar da Maud Epascolato no futuro? Fale um pouco sobre seus projetos
e outras obras literárias.
Tenho muitos projetos engavetados e que
precisam de continuidade. Devido ao meu trabalho com revisão, que toma muito do
meu tempo e do vigor mental, e do meu sofrimento para escrever, meu processo de
escrita é muito lento. Nem eu mesma sei o que virá.
8. Sabemos
que viver de escrita no Brasil não é uma impossibilidade, mas está muito longe
de ser uma tarefa fácil... Conhecendo a sua perseverança e luta, te pergunto: o
que você tem a dizer aos novos escritores que estão surgindo nesse campo? Qual
dica ou conselho você deixaria para eles?
Viver só da escrita no Brasil é extremamente difícil.
É possível viver de literatura, mas não de escrita, acredito. Grandes
escritores brasileiros tinham e têm suas profissões fora da escrita. Clarice
Lispector, por exemplo, vivia de tradução. Embora não seja um exemplo atual, vários
escritores hoje vivem de dar cursos e palestras e têm suas profissões. Eu vivo
de revisão de texto. Isso é viver de literatura, não de escrita. Mas aos novos
escritores (e eu sou um deles), digo que se o que você escreve te faz feliz,
escreva. Se o que você escreve é uma terapia, escreva. Se você se sente
realizado escrevendo, escreva. Não espere reconhecimento imediato. Não espere
dinheiro. Não espere aquela editora enorme e maravilhosa reconhecer o seu
talento. Escreva o que gosta e o que sabe escrever, pois isso soará mais
natural no papel. Escreva para se libertar. Se é o que você quer para sua vida,
não desista, pois a partir do momento que você desiste dos sonhos, você desiste
da vida.
Para
finalizar, vamos fazer um bate e volta literário!
Um livro
que marcou a sua infância: O exorcista, de William Peter Blatty. (É sério!
Foi meu primeiro livro de terror, e fiquei tão apavorada que só voltei a ler
esse gênero aos 16 anos – Allan Poe, que eu não sabia que era terror na época.)
Um personagem: Annie Wilkes (Misery, de Stephen King)
Uma
adaptação para o cinema que, na sua opinião, deu muito certo: O bebê de Rosemary.
(Li o livro e vi o filme. Ficou perfeito!)
Três
escritores nacionais: Posso citar mais? Então lá vai: Robson Gundim (é você mesmo, rapaz!), Pâmela Filipini, Lucas
Odersvank e Gabriel Tennyson. São novos talentos que merecem atenção e que
gosto muito (e que acabaram se tornando amigos devido à admiração que tenho por
eles).
Se o
seu livro “A Bruxa do Olho de Vidro” fosse uma música, ele seria: Nightbook,
de Ludovico Einaudi.
Uma mania na hora de escrever: Um copo
de água ao lado. E só.
Muito obrigado por
ceder parte do seu tempo para essa entrevista, Maud! Que você continue a
trilhar por um caminho de luz e de muito sucesso!
Maud Epascolato nasceu em 1979 no Rio de Janeiro e foi
criada em Angra dos Reis. É escritora, revisora, professora, leitora
compulsiva, apaixonada por gatos, pizza, chocolate, Allan Poe, Paul Auster,
filmes, livros de psicologia, Carlos Ruiz Zafón, coxinha e suco de tangerina,
não exatamente nessa ordem. Começou a escrever histórias policiais aos 14 anos,
mas só veio a publicar vinte anos depois. Seu primeiro trabalho publicado foi o conto “Tempestade de
Dezembro” na antologia O Último Dia antes
do Fim do Mundo, pelo selo Ases da Literatura, da Editora Novo Século, em
2012. No ano seguinte, publicou MEDO DO
ESCURO e outras histórias, seu primeiro livro solo. Participa também da
antologia Conto dos 7, com “Encontro com a Morte”, lançada em 2014, disponível
na Amazon. Possui também outros dois contos avulsos na Amazon: “Querida Mari” e
“Ácido, Amargo & Triste”. Atualmente mora em Sorocaba com
dois gatos, estantes abarrotadas de livros e pilhas infindáveis de filmes.
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Com a Maud e o Pedro Almeida, na Bienal de SP (2016) |
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